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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"Al menos que el amor nos salve de la vida"


                                               “Si nada nos salva de la muerte,
                                          al menos que el amor nos salve de la vida.”
                                                                                 Pablo Neruda

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Que vim fazer nesse mundo?

 XXXI - Asas

A quem posso perguntar
que vim fazer nesse mundo?

Por que me movo sem querer,
por que não fico parado?

Por que vou sem rodas rodando,
sem penas nem asas voando,

e por que quis transmigrar
se meus ossos vivem no Chile?



NERUDA, Pablo. Livro das Perguntas. São Paulo: Cosac Naif, 2008

AS PERGUNTAS DE PABLO NERUDA

XLIV- ESQUELETO

Onde está o menino que fui?
está dentro de mim ou se foi?

Sabe que jamais o quis
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para nos separarmos?

Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?

E se minha alma se foi
                                                                                     por que me segue o esqueleto?


NERUDA, Pablo. Livro das Perguntas. São Paulo: Cosac Naif, 2008

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

OS ENIGMAS DE PABLO NERUDA





Os Enigmas
Perguntastes-me o que fia o crustáceo entre as suas patas de ouro
e eu vos respondo: O mar é que sabe.
Dizeis-me o que espera a caravela no seu sino transparente? O que espera?
Eu vos digo, espera como vós o tempo.
Perguntais-me a quem atinge o braço da alga Macrocustis?
Indagai-o, a certa hora, em certo mar que conheço.
Sem dúvida perguntar-me-eis pelo marfim maldito do narwhal, para que eu vos responda
de que modo o unicórnio marinho agoniza arpoado.

Perguntais-me talvez pelas penas alcionárias que tremem
nas puras origens da maré austral?
E sobre a construção cristalina do pólipo enredastes, sem dúvida,
uma pergunta mais, desfiando-a agora?
Quereis saber a elétrica matéria dos ouriços do fundo?
A armada estalactite que caminha se quebrando?
O anzol do peixe pescador, a música estendida na profundidade como um fio na água?

Eu vos quero dizer que isso quem sabe é o mar, que a vida em suas arcas
é larga como areia, inumerável e pura
e entre as uvas sanguinárias o tempo poliu
a dureza de uma pétala, a luz da medusa
e debrulhou o ramo de suas fibras corais
de uma cornucópia de nácar infinito.

Eu não sou senão a rede vazia que adianta
os olhos humanos, mortos naquelas trevas,
acostumados ao triângulo, medidas
de um tímido hemisfério da laranja.       

Andei como vos arranhando
a estrela interminável,
e na minha rede, na noite, acordei nu,
 única pesa, peixe encerrado no vento.

Pablo Neruda (trad.: Eliane Zagury)
NERUDA, Pablo. Antologia Poética. Rio de Janeiro, editora José Olympio,1983. pp 147-149

Um pouco de POESIA

PEÇO SILÊNCIO

Agora me deixem tranqüilo.
Agora se acostumem sem mim.

Eu vou cerrar os meus olhos.

Somente quero cinco coisas,
cinco raízes preferidas.

Uma é o amor sem fim.

A segunda é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
voem e voltem à terra.

A terceira é o grave inverno,
a chuva que amei, a carícia
do fogo no frio silvestre.

Em quarto lugar o verão
redondo como uma melancia.
A quinta coisa são os teus olhos,
Matilde minha, bem amada,
não quero ser sem que me olhes :
eu mudo a primavera
para que me sigas olhando.
Amigos, isso é quanto quero.
É quase nada e quase tudo.

Agora se querem, podem ir.

Vivi tanto que um dia
terão de por força me esquecer,
apagando-me do quadro-negro :
meu coração foi interminável.

Porém porque peço silêncio
não creiam que vou morrer :
passa comigo o contrário :
sucede que vou viver.

Sucede que sou e que sigo.

Não será, pois lá bem dentro
de mim crescerão cereais,
primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
porém a mãe terra é escura :
e dentro de mim sou escuro :
sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
e segue sozinha pelo campo.

Sucede que tanto vivi
que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,
nunca tive tantos beijos.

Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.

Me deixem só com o dia.
Peço licença para nascer.

Pablo Neruda
(trad. Thiago de Melo
De Estravagario)